Para o deputado federal Dagoberto Nogueira (PSDB), a pesca esportiva é “o grande problema do Pantanal”, ao se dirigir à ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e de Mudança de Clima, durante reunião preparatória para a COP 15 (Conferência das Partes sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP 15), que se realiza nesta semana em Campo Grande. A prefeitura de Corumbá repudiou de forma veemente a fala do parlamentar.
A Associação Corumbaense das Empresas Regionais de Turismo (Acert) também reagiu com indignação e, em carta endereçada ao deputado, pediu sua retratação pública. Para os empresários do setor, as afirmações não condizem com a realidade da atividade, geram desinformação sobre uma atividade econômica relevante e impactam negativamente profissionais, empresas e comunidades que dependem diretamente da pesca esportiva.
Ignorando o potencial pesqueiro da região e o comprometimento de uma atividade sustentável e também a consciência dos pescadores esportivos, os quais hoje não levam mais seus troféus fisgados ao aderirem o pesque e solte, o deputado foi mais além. Em vídeo da reunião, realizada no dia 19, que circulou nas redes sociais, Dagoberto afirma que os pescadores de São Paulo, Minas Gerais e outras regiões nada trazem para o Estado e ainda deixam lixo e provocam fogo.
Eles (os pescadores) chegam naquele ônibus enormes, fazem comida ali mesmo (na beira do rio), não ocupam os hotéis e aí vão embora e deixam uma sujeira danada, quando não põe fogo em tudo”, disse o político. Ao lamentar o posicionamento, o principal destino de pesca esportiva do Estado divulgou, em nota, que “a fala generaliza e desconsidera avanços históricos na regulamentação e na preservação dos recursos pesqueiros da região”.
Boas práticas ambientais
Segundo a Fundação de Turismo do Pantanal, (Fundtur) Corumbá recebe anualmente mais de 30 mil pescadores, os quais ocupam as estruturas das pousadas e pesqueiros situados ao longo dos rios ou realizam os cruzeiros em barcos hotéis (embarcações para 20 a 80 pessoas, com alto atendimento de bordo e de pesca). O destino tem a maior frota fluvial especializada em pesca esportiva, com a presença cada vez maior de famílias e grupos de mulheres.
“Desde as décadas de 1980 e 1990, quando não havia controle efetivo da atividade, Corumbá contribuiu na evolução para um modelo sustentável, com redução de cotas, fortalecimento da fiscalização e incentivo à pesca esportiva”, diz o comunicado da prefeitura divulgado em seu portal, citando as leis da piracema e da proibição da captura do dourado (adotada no município em 2012) e a consolidação da prática do pesque e solte.
Hoje, a pesca esportiva é um dos pilares do turismo sustentável local, gerando emprego, renda e promovendo a conservação ambiental. “O modelo é resultado de um esforço conjunto entre o poder público, o setor turístico e a comunidade comprometidos com a preservação do Pantanal e com o desenvolvimento responsável. Corumbá é referência nacional e internacional em turismo de pesca esportiva alinhado às boas práticas ambientais”, esclarece a nota.
“A gestão pública, pescadores esportivos, operadores, guias e toda a cadeia produtiva atuam como aliados na conservação do bioma, contribuindo diretamente para a proteção dos recursos naturais e para a geração de emprego e renda nas comunidades locais”, afirma Zelinho de Carvalho, diretor-presidente da Fundtur Pantanal. Segundo ele, a declaração do deputado remete à década de 1980, quando se pescava o que queria e a fiscalização era incipiente.
Por: Silvio Andrade
